| | |
| Perguntou-lhe Jesus “ Qual é o teu nome?” Respondeu-lhe “Legião é o meu nome, porque somos muitos” Mc 5, 9 Volto ao problema da cracolândia. Ao que parece, a meta é levar os dependentes de crack a uma desintoxicação, e não a um tratamento. Desintoxicação médica é apenas o primeiro estágio do tratamento, e contribui pouco para mudança em longo prazo. A desintoxicação sozinha, raramente é suficiente para atingir abstinência. Pesquisas indicam que o tratamento não precisa ser voluntário para ser eficaz. O tratamento envolve equipe multidisciplinar. Um dependente químico fica parado no tempo, dedicando-se apenas às drogas. Não estuda, não trabalha, não consegue estabelecer vínculos saudáveis. O uso de drogas, intermitente interrompe etapas importantes de aprendizagem. É preciso recuperá-las, e elas só podem ser trabalhadas após a desintoxicação. Cuidar dessas áreas desativadas demanda esforço, apoio da família, e de profissionais especializados. Os grupos anônimos ajuda-o com a espiritualidade, um dos requisitos importantes do tratamento. A espiritualidade traz confiança e esperança para a nova vida. Os recursos cognitivos auxiliam na percepção da compulsão, e a lidar com a recaída. Muitas vezes ele para com as drogas e adquire outras compulsões, tais como, sexo, jogo, pornografia, sites de relacionamentos. A motivação desempenha um papel importante com relação ao projeto de vida. Reatar um antigo relacionamento, ser aceito pela família, ser exemplo para os filhos. Uma rede de proteção social, com atuações colaborativas, dá-lhe segurança, de não estar só. Um grupo, um conselheiro, um profissional devem estar incluídos nessa rede. Programas de tratamento que proporcionem avaliação para AIDS/ HIV, Hepatite B e C, Tuberculose e outras doenças infecciosas, e aconselhamento para ajudá-lo a modificar comportamento de risco, e de infecção. Em virtude de distúrbios mentais e dependência, frequentemente ocorrem na mesma pessoa, é importante que seja avaliada e tratada. O caminho da sobriedade demanda tempo e paciência, pois nesse percurso podem ocorrer as recaídas. Acredito que o mais importante dessa trajetória seja a família. Ela sofre a maior perda. Escolas, igrejas, governo, grupos, profissionais, podem ajudar, mas ninguém pode substituir a família. O envolvimento da família no caminho da sobriedade mobiliza as forças das quais, ele precisa, para se recuperar. Muitas vezes ela não tem condições de acolhê-lo. Então, o governo, terá de responder a esse desafio. Políticas públicas, respeito e tratamento digno. O crack já é um demônio na vida das pessoas, e não precisa ser mais demonizado. Beatriz Silva Ferreira |