A fim de analisar como os pressupostos acima descritos podem comparecer na clínica psicanalítica das toxicomanias, lançaremos mão de dois fragmentos de casos clínicos: o caso de Maria e o caso de Leandro. A respeito do caso Maria, trata-se de uma mulher de quarenta anos que chegou ao tratamento com uma hipótese diagnóstica de psicose e apresentando-se como alguém que nasceu para sofrer, pois relatava já ter sofrido vários abusos sexuais, tanto do pai como dos irmãos e de alguns companheiros com quem conviveu maritalmente. Além disso, Maria se dizia perseguida e rejeitada. Afirmando que já estava cansada dos tantos abusos que havia sofrido, ela relatou que mandou matar um ex-companheiro como uma forma de se vingar de todos que a abusaram. Maria afirma ser um monstro e demanda que a responsável por seus atendimentos a veja como tal, chegando até mesmo a dizer-lhe que ela não se engane, pois não a conhece. Maria, inclusive, já fez várias atuações no intuito de provar sua monstruosidade, sendo, em função disso, temida por vários outros profissionais que a acompanham na instituição de saúde onde se trata.
Porém, ao mesmo tempo em que demanda ser vista como um monstro, Maria também oferece à praticante da psicanálise que a atende sua abstinência de drogas, a qual apresenta como uma espécie de presente. Enquanto nos períodos de uso de drogas Maria apresenta-se de forma violenta e com trejeitos masculinizados, chegando a manter relações homossexuais; nos períodos de abstinência ela apresenta-se como benfeitora e com uma postura mais feminilizada.
No entanto, a praticante da psicanálise não responde do lugar em que é colocada por Maria: não teme o 'monstro' que Maria diz ser nem se ensoberbece com o suposto 'presente' que lhe é ofertado. Assim, por trabalhar com a hipótese de uma estrutura histérica e não dirigir-se a Maria como monstro, a psicanalista opera o que podemos chamar de um ato analítico, o qual, é importante salientar, não pode ocorrer fora da transferência. Esse ato, ao promover uma quebra na cadeia de significações estabelecida por Maria, suspende toda a ordem prévia e favorece a irrupção do novo. Assim, ao olhar para Maria sem vê-la como monstro, a analista possibilitou a emergência de um reposicionamento subjetivo ante o gozo oriundo da intoxicação. A partir daí, pode-se deduzir que, se o uso de drogas comparecia na vida psíquica de Maria como algo que lhe possibilitava tornar-se um 'monstro' (traficando, matando etc.), a posição da psiquiatra em não tomá-la deste lugar teve implicações sobre o modo de Maria se relacionar com as substâncias psicoativas bem como sobre seu posicionamento diante da partilha dos sexos. E esta direção que está sendo dada ao tratamento de Maria vem possibilitando que ela experimente circular por outras posições subjetivas que não a de monstro.
Por sua vez, no que tange ao caso Leandro, trata-se de um rapaz de trinta anos, que procurou uma instituição de tratamento para usuários de drogas a fim de interromper o consumo e satisfazer, assim, a vontade da mãe, que o acompanhava aos atendimentos. Leandro não trabalhava nem estudava e relatava ficar durante a maior parte dos dias em casa, atualizando um blog que havia criado e no qual escrevia textos e artigos sobre experiências com drogas.
Após algumas sessões, Leandro revelou que, nesse blog, nunca escrevia sobre suas próprias experiências com drogas, mas apenas sobre as experiências com drogas que ele observava em outros. Através de uma história na qual se observava uma linha muito tênue entre delírio e realidade, Leandro narrou que correria o risco de acontecer algo de muito ruim caso ele escrevesse no blog suas próprias experiências com as drogas e que tinha medo de sair na rua porque as pessoas estavam tramando contra ele. Inicialmente, Leandro justificou esse medo pela afirmação de que havia afrontado um pastor e que, por isso, o pastor queria se vingar dele, matando-o.
Porém, ao longo dos atendimentos e com a utilização de uma dosagem pequena de medicações antipsicóticas, Leandro começou a sistematizar seu delírio, o qual se caracterizava por ser um delírio de perseguição que inicialmente era direcionado apenas ao pastor e que, posteriormente, passou a ser dirigido a todas as pessoas da sua rua. Nesse caso, a direção do tratamento analítico seguiu a orientação segundo a qual, na clínica com psicóticos, o analista deve desempenhar a função de secretário do alienado, de modo a propiciar a construção delirante como uma tentativa de suplência à foraclusão da castração. Este manejo possibilitou certa regulação no consumo de drogas de Leandro na medida em que, ao longo do tratamento, ele encontrou uma abertura para, minimamente, simbolizar o gozo invasor característico da sua estrutura psicótica.
Dessa maneira, levando em consideração que o discurso analítico aproxima-se da lógica da operação de separação, ao promover uma ruptura, ainda que parcial, com a alienação do sujeito aos significantes fixados a partir do Outro, pode-se pensar que, no caso da clínica psicanalítica das toxicomanias, visa-se operar algo de uma separação não do Outro, mas do gozo perigoso do Outro que invade e escraviza o sujeito. Nessa perspectiva, segundo Lacan (1964/1998), se separar significa engendrar-se no âmbito dos tratamentos ofertados para os usuários de drogas e toxicômanos a partir da proposta da psicanálise, tratar-se-ia de fazer engendrar um sujeito onde apenas havia um corpo comandado pela substância tóxica ou pelo peso do significante fixado no objeto droga. A esse respeito, consideramos que as praticantes da psicanálise responsáveis pelos casos clínicos analisados conseguiram sustentar esta postura ética.
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