Psicoterapeuta. - CRT 42.156

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Fernando Cesar Ferroni de Freitas

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A perspectiva psicanalítica nos tratamentos para usuários de drogas

O estudo do fenômeno do uso de drogas e das suas diferentes modalidades de tratamento tem revelado cada vez mais a importância de levarmos em consideração o sujeito que recorre às substâncias psicoativas e o gozo atrelado às práticas de intoxicação (Torossian, 2004). A ideia de que, ao consumo de substâncias tóxicas, subjaz um sujeito que faz uma escolha e que consegue extrair desta prática um gozo, remete ao conceito de sujeito do inconsciente, o qual é concebido como estando além do indivíduo e da doença.
Nesse sentido, uma das principais especificidades do tratamento analítico é sua ênfase na estrutura subjetiva em detrimento do fenômeno patológico individual. É por esta razão que, diferentemente do diagnóstico médico-psiquiátrico, que é fenomenológico e baseia-se em um conjunto de sinais previamente definidos, o diagnóstico psicanalítico é estrutural e visa analisar a posição assumida pelo sujeito diante do Outro (Figueiredo & Tenório, 2002).
Uma das principais consequências da diferenciação entre fenômeno e estrutura no tratamento das toxicomanias diz respeito ao fato de que esta se contrapõe à perspectiva de tratamento das instituições especializadas (Martins, 2005). Tais instituições, como as especializadas em uso de drogas, distúrbios alimentares ou outras manifestações monossintomáticas, priorizam o fenômeno em detrimento da estrutura. Em função dessa lógica, estas instituições ratificam, nos seus usuários, uma identificação com os fenômenos que nelas são tratados, acarretando, assim, uma função de nomeação. Porém, um dos efeitos nefastos desta nomeação é que esta geralmente traz implícita a suposição de que um fenômeno é capaz de definir o sujeito, o que dificulta ou até impossibilita um questionamento, por parte do usuário, acerca daquilo que subjaz ao fenômeno.
Nesse sentido, na perspectiva da psicanálise, o diagnóstico busca o mais além dos fenômenos, preconizando uma clínica da escuta que objetiva analisar as maneiras como os efeitos de uma confrontação com o Outro se estabelecem na definição de uma estrutura do sujeito (Figueiredo & Tenório, 2002). Dessa maneira, é a partir do diagnóstico diferencial entre neurose, psicose e perversão que o tratamento psicanalítico irá se desenrolar.
Isso porque a psicanálise propõe que o fenômeno do uso de drogas terá certas particularidades dependendo da estrutura na qual se manifesta. Assim, a perspectiva psicanalítica considera que as drogas podem ser usadas com diferentes funções e que o uso de drogas, enquanto fenômeno, apenas vela a estrutura subjetiva que o comporta. Portanto, no tratamento analítico oferecido aos usuários de drogas, torna-se necessário considerar a função e o sentido desse fenômeno para cada sujeito, o que apenas pode ser feito a partir de uma escuta clínica que produza efeitos subjetivos e que seja capaz de favorecer um reposicionamento do paciente ante as desordens de que se queixa.
Desse modo, a perspectiva psicanalítica, contrariamente ao modelo médico-psiquiátrico, o qual segue a lógica das instituições especializadas, prioriza o que Figueiredo (2007) denomina de saber do sujeito em detrimento do saber técnico. Enquanto no saber técnico o sujeito fica assujeitado a um saber que os técnicos de saúde julgam deter sobre o que acreditam ser a doença do paciente, a clínica psicanalítica parte de um não saber sobre o sujeito (Lacan, 1960/1961), apostando em um saber do sujeito, um saber "[...] suposto, oculto, não evidente, que se apresenta de modo difuso, intermitente, lacunar, e que precisa ser recolhido e trabalhado como indicador para o tratamento" (Figueiredo, 2007, p. 42).
Então, para que um tratamento psicanalítico das toxicomanias possa ter lugar em instituições de saúde mental especializadas no atendimento a usuários de drogas, é necessário que o praticante da psicanálise, que atua em tais instituições, consiga trilhar um percurso que vá do fenômeno à estrutura, tomando esta última como um guia que orienta a análise dos fenômenos e determina a direção a ser dada ao processo terapêutico. Em outras palavras, podemos afirmar que apenas é possível o estabelecimento de um tratamento analítico para as toxicomanias no espaço institucional na condição de haver uma subordinação dos dispositivos institucionais de tratamento à prática clínica. E essa condição é absolutamente necessária na atualidade, haja vista que a experiência tem demonstrado que o consultório privado é insuficiente como dispositivo para tratar a grande maioria dos chamados sintomas atuais.

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