Psicoterapeuta. - CRT 42.156

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Fernando Cesar Ferroni de Freitas

terça-feira, 5 de maio de 2020

Covid-19, sêmen e secreção vaginal

De repente, uma ameaça de morte no ar.

Máscara! “Por favor, use máscara para preservar sua vida e a dos demais” é uma das frases que mais tem sido pronunciada no mundo inteiro, só perdendo para “Fique em casa!”
O vírus mata. Usar máscara e ficar em casa protegem do vírus mortal, desde que ele não tenha aderido à máscara ou invadido a casa.

No inicio de 2020, um surto de pneumonia, causada pelo novo coronavírus, foi declarado pela Organização Mundial de Saúde como uma emergência global e uma pandemia, pois a doença relatada , em dezembro passado, pela primeira vez na cidade de Wuhan (China) se alastrou para dezenas de outros países. Esse vírus, como sabemos, é transmitido principalmente pelo contato direto e por gotículas respiratórias.

Num ritmo extenuante, pesquisadores de todo o planeta se lançaram na complexa e meticulosa missão de conhecer mais para fazer frente a essa guerra desigual, onde um lado ataca sem tréguas, enquanto o outro só tem armas para se defender, quando as têm.

Confinado e, ao mesmo tempo, distante fisicamente das pessoas queridas , você tenta não sucumbir a esse paradoxo, apesar de todas as dúvidas e dos poucos indícios confiáveis que teimam em não se transformar em evidências.

Nos supermercados, qualquer pessoa lhe parece um transmissor em potencial; aqueles que você encontra nas farmácias são supostos Covid positivo, ávidos como você por um remédio milagroso. O medo paralisa seu discernimento, enquanto acelera sua paranoia.

No intuito de manter a sanidade mental, você se afasta do noticiário e de todo tipo de contato com o mundo externo. Sai do confinamento e adentra o isolamento. Isolado, você tenta relaxar, faz exercícios físicos, yoga, meditação. Mas, sem o resultado desejado: ao invés do equilíbrio, consegue o tédio.

De repente, você se lembra: “sexo é vida”. Ficar em casa resulta em mais tempo livre, inclusive para a prática sexual: mais tempo para a vida. Você parte para a masturbação e para o sexo virtual. Porém falta alguma coisa. Você se lembra da relação sexual, abandonada há semanas, sem espaço no seu dia a dia, desde que o vírus tomou conta dos seus pensamentos. Você se anima por um instante. Até que uma dúvida perversa contra-ataca: e se o vírus escolheu o sêmen ou a secreção vaginal como um dos seus habitats?

Você volta ao noticiário, aos WhatsApps recebidos, mas pouco encontra. Busca, então, pela literatura médica especializada para sanar sua preocupação.

A ciência informa que o Covid-19 foi encontrado nas fezes de pacientes, o que sugere outras possíveis vias de transmissão a serem investigadas. No que tange à prática sexual, esse achado restringe, até segunda ordem, o contato com o ânus, caso os parceiros não tenham absoluta certeza de que não foram contaminados, certeza essa impossível de se garantir, de forma definitiva. O contágio pode ocorrer de hoje para amanhã.

Estudo chinês, publicado em abril na revista Clinical Infectious Diseases, refere ausência do vírus no trato genital feminino, inclusive na secreção vaginal. Essa pesquisa foi desenvolvida com amostra de 10 mulheres, todas já menopausadas e apresentando sintomas graves de Covid-19. O fluido vaginal foi colhido e examinado 17 ou mais dias após o início da doença. Ainda que não tenha sido constatada a presença do vírus, a amostra era pequena, mulheres no período reprodutivo não foram testadas e a testagem foi por um único método, o qual não garante a detecção de baixa quantidade de vírus. Sendo assim, mais estudos se fazem necessários.

Outra recente publicação chinesa, desta vez em Fertility and Sterility, investigou 32 homens com sintomas de Covid-19, não tendo sido encontrado o vírus no sêmen desses homens, um mês após a contaminação. De novo, os dados não podem ser generalizados, em função do tamanho da amostra e porque os pacientes não estavam gravemente doentes.

Ainda em abril, uma pesquisa divulgada pela revista Biology of Reproduction relatou não haver vírus no sêmen e nos testículos de 12 homens infectados pelo Covid-19, testados nas fases aguda e de recuperação. Os autores concluíram ser improvável que esse vírus possa ser transmitido sexualmente pelos homens. Outra vez, sendo o tamanho da amostra relativamente pequeno, futuros estudos mais robustos confirmarão ou não esses achados. Além disso, o ideal seria que várias testagem do sêmen de cada paciente fossem feitas , durante o curso da doença. No entanto, essa múltipla coleta é impraticável, como se pode imaginar, enquanto os homens estão doentes. Assim, apesar dos dados sugerirem que o Covid-19 não infecta diretamente os testículos e o trato genital masculino, uma resposta definitiva a esse respeito ainda está por vir.

Diante desses resultados , por enquanto inconclusivos, sugiro a você que – caso não tenha certeza da sua higidez e da higidez de sua( seu) parceira(o) evite o beijo e a proximidade facial, bem como o sexo oral e os contatos que incluam a região do ânus . E mais: não dispense o uso do preservativo (masculino ou feminino, conforme o caso) nem utilize saliva para lubrificar os genitais, durante a relação sexual.

A ciência continua trabalhando ininterruptamente para chegar a respostas mais consistentes, no menor tempo possível. Que venham as respostas. E que sejam alvissareiras!

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